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Ai de Mim, se eu não Anunciar o Evangelho.
Núcleo de Estudo
20-11-2009
   
Anuncie o Evangelho.

Pretendemos agora deter-nos de forma especial sobre a urgência que Paulo dedica à missão: de onde brota a sua ação missionária na Igreja e em favor dela? Qual é o conteúdo insubstituível da sua evangelização? Porque é que anunciar o evangelho não é para ele um motivo de glória, nem uma livre opção, mas antes um dever? E, finalmente, qual é o objectivo da instância missionária da Igreja no nosso tempo?


1 – A identidade missionária de Paulo


Não raro, pensamos em Paulo de Tarso como se tivesse sido um filósofo, colocado ao mesmo nível dos maiores pensadores da humanidade, ou um dos teólogos mais originais e profundos da história da Igreja. De facto ele é também um dos maiores pensadores, um dos conhecedores mais agudos da mente humana, um dos místicos mais arrojados da Igreja, que chegou mesmo a ser «arrebatado ao céu, tendo ai ouvido palavras inexprimíveis que a ninguém é lícito pronunciar» (2Cor 12,4). Eis como S. João Crisóstomo no seu livro De Sacerdotio (4,9) exalta o gênio a santidade de Paulo: «Se demandasse a eloqüência de Isócratres, a grandeza de Demóstenes, a gravidade de Tucídides e a sublimidade de Platão, teria que evocar o testemunho de Paulo.»

Paulo, no entanto, define-se a si mesmo antes de mais como sendo um missionário, um apóstolo, «escolhido desde o seio para anunciar a Cristo entre os gentios» (Gl 1,15 – 16) ou seja, entre aqueles que não pertenciam ao povo eleito. «Apóstolo por vocação» (Rm 1,1), nunca se concebeu sem esta característica que o levou a cruzar, ao longe e ao largo, as principais províncias do Império romano, para «se fazer fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos, fazendo-se tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo» (1Cor 9,22). É por isso que logo no início das suas cartas começa por se apresentar como «apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus» (1 Cor 1,1), «eleito de antemão para anunciar o Evangelho de Deus» (Rm 1,1).


2 – Conteúdo da missão Paulina


O conteúdo indelével da missão Paulina é o Evangelho, a ponto de o levar a afirmar que faz tudo pelo Evangelho (1Cor 9,23): a sua vida consumiu-se total e exclusivamente pelo Evangelho. Entretanto, sobre este tema do Evangelho como conteúdo essencial da existência de Paulo, devemos esclarecer alguns pontos mais em particular. No nosso tempo assistimos infelizmente, por um lado, à moda da difusão dos Evangelhos gnósticos, redigidos no século II d. C. e, por outro, ao escasso contacto dos próprios cristãos com os quatro Evangelhos transmitidos pela Igreja do Novo Testamento, caindo alguns na presunção de os conhecer só por deles terem ouvido falar. Sem negar a utilidade da leitura das fontes cristãs das origens, mesmo se caracterizadas por uma tendência gnóstica – a qual tende a desvalorizar a via da encarnação – não podemos ignorar a importância dos Evangelhos e das cartas de Paulo, as quais têm no Evangelho o seu centro unificador.



Se o anúncio do Evangelho, pela palavra e com a vida, é tão central para Paulo, é porque o Evangelho não se reduz a uma mera narração, identificando-se, antes, pelo contrário, com uma pessoa, a pessoa de Cristo: «Pois nós não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, como o Senhor» (2Cor 4,5). Jesus Cristo, o Senhor, é o conteúdo do Evangelho de Paulo; ele que, com a sua morte de cruz, se tornou para nós «sabedoria, justiça, santificação e redenção» (1Cor 1,30).


Perante um quaerere Deum meramente humano, sempre insuficiente, com os seus mil e um modos de buscar a Deus, como que tacteando por entre as trevas da história humana, prevalece o facto de, como Paulo lembra aos Coríntios, por puro dom da graça, «o Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós vos anunciámos, não ser um “sim” e um “não”, mas apenas um “sim”, pois nele todas as promessas de Deus foram um “sim”» (2Cor 1,19–20). No mistério imperscrutável da cruz de Cristo, encontra-se o “sim” fiel de Deus ao homem, de Deus que, por amor, «não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou a morte por todos nós» (Rm 8,32). É precisamente neste “sim” de Deus em Cristo, diríamos, com Paulo que ele se idêntica com o Evangelho da Reconciliação: «era Deus que reconciliava o mundo consigo em Cristo, não imputando aos homens os seu pecados e confiando-nos a palavra da reconciliação. É em nome de Cristo, portanto que exercemos a função de embaixadores» (2Cor 5,19 – 20).


Em Cristo, Deus veio ao encontro de cada pessoa de forma plena, de modo definitivo e permanente, inundando-a com o seu amor a ponto de mudar a sua existência a partir do mais profundo do seu ser: «o amor de Cristo» circunda-nos de tal modo que «nos sustenta» (2Cor 5,14) para que não continuemos «a viver para nós mesmos, mas para Aquele que por nós morreu e ressuscitou» (2Cor 5,15).


Para Paulo, ser Apóstolos significa passar a ser instrumentos e servos da graça, do amor de Cristo, levando a todos e a cada um o Evangelho da reconciliação e da misericórdia de Deus: d’aquele que, por própria iniciativa, «derramou o seu amor nos nossos corações por meio do Espírito e nos foi dado» (Rm 5,5). Ora é toda a Igreja e não só alguns que é confinada a missão de levar a Boa Nova a cada ser humano, em ligar e canto da terra.


Sublinhava-o com grande vigor o Servo de Deus, Paulo VI, quando, na exortação apostólica Evangelli Nuntiandi diz que «o mandato dado aos Apóstolos – “ide por todo o mundo e anunciai a boa–nova” – continua a ser válido, se bem que de modo diverso, para todos e cada um dos cristãos.


É precisamente por isso que São Pedro os designa como “Povo que Deus adquiriu a fim de proclamar as maravilhas daquele que vos chamou” (cf. 1Ped 2,9), essas mesmas maravilhas que cada um pôde escutar na sua própria língua materna (cf. Act 2,11). De resto, a Boa-Nova do reino (…) é para todos os homens de todos os tempos. Aqueles que a recebem e ela congrega na comunidade da salvação, podem e devem comunica-la e difundi-la ulteriormente» (EN 13).

 

3 – Pregar o Evangelho não é para Paulo um motivo de glória,
mas um dever

 

À luz do que dissemos, podemos compreender bem Paulo quando afirma: «Para mim, evangelizar não é um título de glória, mas um dever.


Ai de mim se não anunciar o Evangelho» (1Cor 9,15). Isto também podem – e devem! – dizer todos os cristãos em virtude do seu baptismo.


De facto, a vocação baptismal é fundamentalmente uma vocação apostólica, missionária, evangelizadora. Somos cristãos na medida em que formos apóstolos, missionários, evangelistas.


Em especial, Paulo sente o anúncio do evangelho como dever, tomando em sentido escrito, por duas razões fundamentais: uma cristológica e outra eclesiológica.

Antes de mais por uma razão cristológica. A ânsia missionária do apostolo promana da sua identificação com Cristo. É Ele o centro e o ápice da sua vida. Paulo está apaixonado por Aquele que lhe apareceu no caminho de Damasco. O objectivo da sua vida não é outro senão o de se identificar completamente com Ele. O Apóstolo é categórico a tal respeito: «Para mim viver é Cristo e morrer um lucro» (Fl 1,20): «eu vivo, mas já não sou eu que vivo: é Cristo que vive me mim» (Gl 2,20). Se Cristo, o Senhor, representa o conteúdo da missão de Paulo, Ele passa também a ser a sua vida, a sua respiração, o seu caminho nas estradas do mundo.


Ora bem, o Cristo com o qual Paulo se identifica, é o Cristo missus a Padre, o Enviado, o Missionário do Pai, que se encarnou para anunciar a salvação, o maior dom de Deus, a qual não só é libertação de tudo aquilo que oprime o homem, mas que é sobretudo libertação do pecado e da morte (cf. EN 9). Sendo assim, a identificação de Paulo com Cristo deve ser compreendida na linha de uma identificação com Cristo missus, com o Missionário do Pai. Eis porque evangelizar não é, para Paulo, um motivo de glória, mas antes um dever.


Além disso, há uma razão eclesiológica. Cristo continua a viver na Igreja. Esta não é, afinal de contas, outra coisa senão Cristo encarnado numa comunidade de fé, de esperança e de amor, o qual assim prossegue a sua missão de salvação entre os homens que se vão sucedendo ao longo dos tempos. Santo Agostinho diz a propósito: «a Igreja é Cristo que se ama a si mesmo» (cf. Agostinho, Enarrat. 88, Sermo 2,14: PL 37,1140;EN 16).

Se Cristo é o missionário do Pai, então a Igreja é a missionária de Cristo. Nascida da missão, ela é, por sua vez, enviada ao mundo por Jesus (cf. EN 15).


Tocamos aqui a dimensão missionária da Igreja. «O mandato de evangelizar todos os homens constitui a sua dimensão essencial» (Sínoldo dos Bispos de 1974, sobre a evangelização), «tarefa e missão», repete Paulo VI, «que as grandes e profundas mudanças da sociedade actual não tornaram menos urgente. Evangelizar é, de facto, a graça e a vocação próprio da Igreja, a sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar» (EN 14). Uma Igreja que não estivesse em contínua tensão missionária, não seria a verdadeira Igreja de Cristo.


Em termos religiosamente lógicos, não se devia, pois, falar de Igreja e de missões. Existe uma Igreja Missionária. Existe uma missão da Igreja. Não se trata de duas realidades, mas de uma só realidade eclesial.

(José Saraiva Martins, Ide e anunciai, p. 91).


Tal é a segunda razão da afirmação de Paulo. Como apaixonado por Cristo e pela sua Igreja, por Ele enviada ao mundo para Evangelizar, para Paulo o anúncio do Evangelho não podia ser uma opção, mas antes um dever. Ele sentia-se na obrigação de ser, na sua vida, a expressão viva da missão de Cristo e da sua Esposa bem–amada.

Conclusão

A exclamação Paulina «Ai de mim se eu não anunciar o evangelho», é igualmente válida para todo aquele que, sendo leigo, presbítero ou bispo, recebeu das mãos da Igreja o Evangelho, esse mesmo Evangelho que deve propagar como se difunde «o perfume de Cristo» (2Cor 2,15) entre aqueles que estão perto e os que estão longe. Façamos nossa também a interpelação endereçada por Paulo à Igreja no que respeita ao mistério audaz e difícil da missão: «como hão-de invocar o Senhor, se antes não tiverem acreditado nele? E como hão-de acreditar, se dele não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem haver alguém que o anuncie? E como hão-de anunciar, sem primeiro terem sido ouvidos? Tal como está escrito: Quão belos são os pés dos que anunciam a boa-nova»(Rm 10,14-15). Se «a fé nasce da escuta, e a escuta nasce da Palavra de Cristo» (Ro 10,17), então a nossa responsabilidade perante o Evangelho que nos foi confiado no início do nosso apostolado é grande; uma responsabilidade de que seremos chamados a prestar contas no termo da nossa existência.


O Senhor não quer que acabemos por desvalorizar o Evangelho que foi depositado em nós como «um tesouro, em vasos de barro» (2Cor 4,7), mas quer antes que arrisquemos tudo para o fazer comercializável e vendível. Jesus Cristo em pessoa é o tesouro, achado no meio do campo, pelo qual vale a pena vender quanto possuímos e somos, a fim de o adquirir. Por ele somos chamados a considerar tudo como «lixo, a fim de ganhar Cristo e nele achados» (Fl 3,8-9). O Evangelho completa a sua carreira com os pés cansados, cobertos de pó e não raro feridos, com os pés de quem, como Paulo, «nada mais quis saber, a não ser Jesus Cristo e este crucificado» (1Cor2,2)
 
 
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