Jesus, na parábola do pai misericordioso, que se encontra em Lc 15, 11-32 nos leva a contemplar a profundidade da misericórdia de Deus, que vem ao nosso encontro e com forte abraço, regado de beijos, restitui nossa dignidade perdida. O pecado nos afasta da relação filial com Deus, e o escrúpulo exagerado também: “Já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados (Lc 15, 19)”.
Apesar de ser bem conhecida, essa parábola encontra grande eco em nosso meio, iluminando uma realidade que tem provocado grandes feridas em nossas famílias.
O mal que assola tantos jovens, que saem de casa com a sua herança – sua vida e juventude, seus sonhos e projetos – são as drogas. Quantas famílias se vêem atualmente mergulhadas nesse drama! Esse mal tem destruído as relações familiares e sociais com uma voracidade sem igual. Dilacera os jovens, que muitas vezes pagam com suas próprias vidas o sustento do vício.
A atitude misericordiosa do pai, plasmada sutilmente na parábola por um avistar o filho de longe, correr-lhe ao encontro, abraçar e cobri-lo de beijos, nos faz pensar também o misto de impotência e esperança que ecoa no interior de nossas famílias. Impotência, pois só se pode ir até à metade do caminho; esperança, porque o filho pode ser avistado de longe, não se importando com as tantas idas inúteis na expectativa desse encontro. O jovem vai retornar!
No discurso na Fazenda Esperança, em Guaratinguetá, na ocasião de sua visita ao Brasil, o Papa Bento XVI levanta o tom e desafia os traficantes: “Deus vai-lhes exigir satisfações”.
Essa indignação deve perpassar também nossos sentimentos, diante desse grave pecado social. Ao mesmo tempo, deve questionar a atitude de tantos pais e mães que simplesmente esqueceram o caminho por onde seus filhos abandonaram a vida, a troco de uma fantasia mortal. Também deve exigir de nossos governantes políticas públicas para a juventude, oportunidades de emprego. Deus também vai-nos exigir satisfações!
Voltando nosso olhar contemplativo à parábola, sentindo indignação, mas também percebendo a terna solidariedade de Deus, podemos olhar na figura daquele pai, as famílias, a Igreja, o poder público. Para isso, é preciso também criar situações que fazem com que nossos jovens se recordem da vida, de sua juventude, e se envergonhem da lavagem que tentam comer ao desperdiçar sua juventude nas drogas.
Sentindo nossa condição de miseráveis, estando a sós com o Misericordioso, contemplamos na cruz a radical e solidária entrega de Deus no amor: “a dor do Crucificado, que atravessou a alma de Maria ao pé da cruz, console tantos corações maternos e paternos que choram de dor por seus filhos ainda dependentes de drogas! (Bento XVI) |